Diário ·
Aquilo que acontece entre nós
Sobre duetos, encontros e a ideia de que nos vamos tornando quem somos na relação com os outros.
Quando duas vozes cantam juntas, acontece algo curioso: a harmonia não pertence a nenhuma delas. Não está na primeira voz, nem na segunda — nasce no espaço entre as duas. Basta que uma mude ligeiramente o tom para que tudo o que se ouve se transforme.
Gosto desta imagem para pensar a perspetiva relacional em psicoterapia. Durante muito tempo, foi comum imaginar o sofrimento psicológico como algo que existe dentro de uma pessoa, isolado, à espera de ser identificado e corrigido. A abordagem relacional propõe outro ponto de partida: grande parte daquilo que sentimos forma-se, e continua a formar-se, nas relações que vivemos.
O que trazemos connosco
Cada um de nós chega às relações com uma espécie de partitura antiga. Aprendemos cedo — muitas vezes antes de termos palavras — o que esperar dos outros, o que é seguro mostrar e o que é melhor esconder. Essas aprendizagens foram, em algum momento, formas inteligentes de nos protegermos. Mas, com o tempo, podem tornar-se repetições: voltamos a escolher o mesmo tipo de relação, a reagir da mesma maneira, a chegar ao mesmo desfecho.
Reconhecer estes padrões não é procurar culpados no passado. É, antes, um gesto de curiosidade: de onde vem isto? Para que me serviu? Ainda me serve?
A terapia como um novo dueto
Na psicoterapia relacional, a relação entre a pessoa e o terapeuta não é apenas o cenário onde o trabalho acontece. Ela própria faz parte do trabalho. É nesse encontro — com as suas confianças, hesitações e desencontros — que os padrões antigos podem aparecer, ser notados e, aos poucos, ganhar outra forma.
Não se trata de aprender uma nova melodia de uma só vez. Trata-se de, num espaço seguro, experimentar outras notas: dizer o que custava dizer, discordar sem perder a ligação, ser escutado de uma forma diferente daquela a que se estava habituado.
Talvez seja por isso que a mudança em terapia raramente é súbita. Parece-se mais com afinar um instrumento — com paciência, a dois, ouvindo com atenção aquilo que acontece entre nós.